20071117

A minha pereira

A minha pereira (que há-de ser sempre a minha pereira e ainda hoje quando olho para o lugar onde ela cresceu os seus braços por algumas décadas, me lembro de tantas pequeninas coisas de quando a minha casa era de encantar e todos os sorrisos tinham secretos cantos de sereia em cantos que mais ninguém ouvia) ensinou-me a frescura das suas sombras e a energia dos seus ramos e das suas folhas. Era uma espécie de refúgio trepar pelos seus ramos para a minha casa na árvore imaginária, porque eu nunca construí uma casa numa árvore. Mas a minha pereira era a melhor casa de árvore que eu podia ter. Eu também sentia, pela leveza e pelo sorriso com que as suas folhas se tomavam dum verde ainda mais bonito do que era sempre durante todos os dias do ano, mesmo quando se despia de folhas, na mudança eterna das estações, que ela me reconhecia, nas palavras que por vezes, mesmo que só em pensamento, trocava com ela.

A minha pereira nunca deixou de responder às minhas perguntas, e era para todos, para mim, para os gatinhos, para os passarinhos, para as borboletas, para os raios de sol, para as gotas de chuva e para todas os tons do céu uma presença constante. Era como se todos os invernos se encolhessem em vénias quando passavam por ela, porque mesmo nesse descanso, quando as folhas se recolhem para passar o testemunho de tão grandes segredos a outras, parar ao seu lado, encostar-me a ela, ouvir o sussurrar do vento nas suas folhas tão cheias de vida e de encanto, olhar para os seus ramos longos e mágicos, trazia-me essa sensação de paz que eu não conseguia encontrar noutro lugar.

Às vezes procurava-a num jardim antigo, mas nunca demorava o tempo suficiente. Faltava-me a paciência que ela me transmitia e que o meu avô me tentara ensinar, ou a disciplina que a minha mãe me dissera que era tão importante, ou a confiança por teimar em olhar para o chão.

Por vezes penso como devia ter estado mais tempo nesse recanto mágico, que era uma espécie de meu castelo, guardiã da beleza e da bondade, anfitriã das festas de alma mais bonitas. E sempre senti que ela era como da família, como se entre nós todos houvesse (havia) essa ligação umbilical à terra, como se ela nos fosse destinada e nós fossemos destinados a ela.

Como noutras coisas, senti uma estranha invasão quando algumas pessoas se aproximavam dela, como se ela me avisasse dos mares e dos rios e me tentasse escrever na alma as pistas certas para os meus caminhos. Nem sempre os percebi. Algumas vezes também quis levantar a voz, com a sabedoria e tranquilidade que ela me ensinava, mas nem sempre o consegui.

Às vezes imagino que podíamos estar ali, encantados com a sua presença, e fazer um piquenique onde só entrassem fadas e duendes ou pessoas que fossem como fadas e duendes, e ela e as suas irmãs, e os pássaros e as plantas, e cantássemos todos com ou sem palavras, mas com a música mais bonita, aquela que vem de dentro de nós. Às vezes fecho os olhos e imagino-a a sorrir para nós e lembro-me das vezes em que senti esse vazio por ela não estar lá e eu não ter com quem falar.

Recordo a minha infância de coisas bonitas e ela está lá sempre, e vejo a minha avó a tratar dela quando eu era pequenino e eu a sentir que queria descobrir tantas coisas e que a vida era tão bonita, e vejo o sorriso do meu avô e vejo-me a trepar os seus ramos, sem medo das alturas (acho que foi a altura em que tive menos medo das alturas) e a encantar-me com o que via à minha volta. E lembro-me de coisas tão simples e que nunca me abandonaram, nem que fosse por vezes num cantinho muito pequenino. Queria voltar a abraçar os meus avós e brincar com os meus primos e por vezes paro e penso numa fotografia de conjunto que nunca tirámos.

Uma vez disse a uma prima minha (tenho tantas saudades vossas) que um dia ainda havia de plantar uma nova pereira no sítio onde a minha pereira tinha crescido. Nunca o fiz. Como se calhar outras coisas nunca as fiz por estar à espera do tempo certo, do tempo em que eu voltasse a sorrir duma forma que achava que já não conhecia. Mas sempre senti que ela iria renascer um dia, num outro ou no mesmo lugar, para me mostrar todos os arco-iris de que a minha vida se foi esquecendo. Sei agora que renasceu, que já tinha renascido, porque vejo todas as flores com as cores que elas verdadeiramente têm.

Muitas vezes senti que havia coisas muito cinzentas à minha volta e nunca as consegui compreender. Quis fugir para um sítio no meio dum monte muito distante ou afogar-me por instantes no meio do mar (ou ficar dentro de mim - mas dentro de mim nem sempre conseguia manter-me afastado dos ruídos dessas coisas cinzentas), quando me bastaria tê-la abraçado com muita força, ou abraçar as pessoas que sempre estiveram no meu coração, e mostrar-lhes como gostava deles e ouvir os seus conselhos mas sobretudo, sobretudo, o meu coração.

Sempre senti que a falta dela me deixava um vazio, mesmo quando regressava devagar a casa. Quando olho para a minha casa grande e pequenina, penso em tudo que é mais importante para mim, em todas as coisas que sinto, em todos os sonhos que tenho. E é uma das alturas do dia em que sorrio mais, como se dois universos se cruzassem naquele exacto ponto e todas as coisas cinzentas não conseguissem passar. Mas é também umas das alturas em que penso mais, não sei porquê. Talvez por nunca ter tido tantos sonhos como hoje.

Talvez porque o meu coração tem agora mais cor e está tão apaixonado e quer bater com tanta força.

Um dia, há muitos anos, nevou no nosso jardim. Eu fui à janela e tirei uma fotografia. Na fotografia vê-se um pássaro muito pequenino, a neve, e a pereira, a minha pereira :)

20070915

Desenho


Eu não sei desenhar os meus dedos no teu corpo doutra forma, a não ser com a ternura maior dos meus dias, a única que me traz vivo e com uma felicidade sem nome. Apenas não sei. Desenho-os com a paixão das noites e com as palavras que o vento me sussurra quando estou contigo, traço-os nas noites dos descansos e o meu sorriso rasga-se-me na alma. Mas tenho uma tristeza sem cor colada à minha pele e debruço-me sobre os rios das minhas lágrimas à procura dum sentido para isto que não faz sentido. Gostava que me desses a mão nessas noites frias e em todas as noites do mundo, porque nenhuma se sobreporá a nós ... E perdoa-me as poucas palavras, mas a mente traz-me prisioneiro de pensamentos e de prazos ... Todas as outras (e são tantas) embalam-se-me na voz e adormecem-me e acordam-me sempre nos teus braços, à tua procura ...

20070906

Apenas ...

20070611

Borboleta



Quis voltar apenas para vos dizer que sinto falta das minhas palavras nas vossas, dos nossos gestos cortados em cravos e em rosas…
Quis escrever-vos uma homenagem mas faltaram-me as palavras e o tempo.
Assim deixo-vos apenas este abraço de um conhecimento sem nome, de uma nuvem de algodão doce que se passeia nos nossos olhares quando se cruzam. Sei que muitos de vós não sois mais passageiros desta estranha viagem pelos corredores da velha Internet.
Gostava de ser uma borboleta de asas azuis
Tenho nas mãos um vento inteiro (se um vento pode ser inteiro) e toneladas de chuva estão a abalroar-me os olhos
Tenho bichos de seda nas minhas noites que nunca me deixam no absurdo nem no silêncio
Porque são pedaços de voos que sempre quis fazer
Gostava de ter uma casa pequenina e voar por entre as paredes de nuvem dos sonhos que nunca trouxe para cá das minhas despedidas
Gostava de me ir embora sem este travo amargo a sal e a nevoeiro de incertezas, de não ser nada, nada mais
Gostava de ser uma borboleta para viver cada dia como se fosse o último, que nunca soube, para ter em mim descobertas verdadeiras que nunca soube ter, para dizer palavras com o sentido máximo que cada coisa importante na vida deve ter, para comemorar cada instante como uma gota de chuva a cair-me no rosto
Gostava de beijar as mãos ao tempo e sorrir numa lágrima, despedir-me de todos com uma vénia e terminar os meus poemas e os meus dias num barco cheio de coisas bonitas
Gostava de não estar, de não ser, de não me encontrar no fim do mundo

20070301

Antes do amanhecer ...

















Como as minhas flores, a minha alma e a minha voz ...

20061217

"Hands in hands"


(http://www.theaquariumonline.co.uk/)

Quando me pegaste na mão pela primeira vez (ouvi isto numa canção dos Pogues), as estrelas choraram na passagem do cortejo do casamento real entre o sol e a lua, e deitaram-se ao mar, para de novo se levantarem, um dia após o outro, durante uma infinidade de anos-luz. Podes dizer que as minhas letras são sempre da cor das anémonas que trago escondidas no meu peito, em cada intervalo, em cada cântico, em cada respirar no mais ínfimo dos nossos lagos de lágrimas, onde depositamos cada capítulo de cem páginas e o fechamos com as chaves maiores dos nossos castelos. Mas a verdade é que mesmo tu não te debruças sobre as colinas onde vagueiam os nossos sonhos sem te deixares amanhecer de ternura. Sei que és assim, mas não imagino onde te possas ter escondido. Por isso procuro-te como procuro pelo ar que respiro, e se não o tenho, caio neste esquecimento de mim, ato-me os braços despedaçados, enferrujo as minhas páginas secretas com os cadeados que alguém me deu na madrugada dos teus vestidos, das noites em que tivemos sempre razão.

20061207

Sonho

Sonho com um amor maior
E por isso tenho esta confiança a sorrir no meu rosto
Tenho estas filigranas de ouro finíssimas nas linhas do meu destino
A amarrar-me a portos de cores belíssimas, a lembrar-me o sabor a mel das minhas pálpebras quando me adormecias
Sonho com este eterno voltar
A braços de uma lonjura infinda, a rios de um caudal impetuoso
Como as minhas noites.

Trago saudades do poço onde afundo as minhas mágoas, e que se descobre com esta luz que nasce nas madrugadas de ninguém.

Marco com as minhas pegadas a areia de um novo desassossego, a argila com que as minhas mãos te hão-de moldar,
A ti que desde o início me trouxeste, sem margens, a longos mares de desertos, com todos os oásis a guiar-me a passagem,a torcer-me os dedos terna e lentamente
Para de novo os criarem, numa sinfonia de gestos sem desespero
Como a alma dorida de sorrisos.

Por isso é tão maior isto com que sonho
É tão imediato este tão imenso conhecimento que me invade
A mim que, sem saber nada, fujo para a luz mais forte, com esta vontade tão grande de ver, de estar nos teus percursos que não existem, nos teus passos mais belos, nos teus dedos de cor...

Sonho tanto com esta confiança tão grande
Com este amor tão forte,
Que, mesmo que não queira, continuo a guardar todos os tesouros que tenho
À tua espera.

20060606

Desejo



Na minha nostalgia tenho pós de estrada
de todos os passos que gastei à tua procura que nunca me encontraste
tenho desenhos das tuas mãos nas minhas malas das viagens por onde me deixaste
tenho lágrimas de me teres soltado numa estrela do tempo em que os meus olhos eram verdes

Na estrada onde os meus passos se perderam
corro, corro à volta dos meus encontros contigo nas marés baixas de rebeliões
e ouço os gritos que nunca soltei por me faltar força de dizer que não
no medo estranho de seres tu a tempestade que me fechava as portas

Nas memórias do torpor em que me enredei de ter teus beijos tão distantes
vejo que são mais que memórias de me teres prisioneiro e sem-abrigo
e contorço-me para como larva me sofrer metamorfoses e mais metamorfoses
que redesenhem o meu sorriso noutras mãos sem ser as tuas

Mas na sombra e no sol dos teus vestidos
escondi a minha arte de dançar
e dispo-te, oh como te dispo!
em cada pequeno encontro que me dás

20060530

Cinema



If you love movies, it's impossible not to appreciate Cinema Paradiso, Giuseppe Tornatore's heartwarming, nostalgic look at one man's love affair with film, and the story of a very special friendship. Affecting (but not cloying) and sentimental (but not sappy), Cinema Paradiso is the kind of motion picture that can brighten up a gloomy day and bring a smile to the lips of the most taciturn individual. Light and romantic, this fantasy is tinged with just enough realism to make us believe in its magic, even as we are enraptured by its spell.

(from a short review by James Berardinelli in http://movie-reviews.colossus.net)

Este é um dos meus filmes preferidos de todos os tempos... :)
E quais são os vossos?

20060523


Devolvi no último Inverno as minhas nostalgias ao dever de correr bem
ao dever de ter que perder o caminho para o meu farol de impensáveis luzes
e gritei nas meadas de lã que o teu peito e os teus braços me davam
em cada madrugada de vígilia que acabava em sonos mais fundos que os mares das nossas desventuras

Esculpi uma escultura de uma Vénus de Milo a esquadro, com mãos de aguarela
para te despir dos meus preconceitos que te dão prisões que tu não conheces
que te ensinam guias que não falam as estranhas linguas em que nos entendemos
e deixei-me adormecer mesmo com todas as doces trovoadas que me trouxeste

Caí a meio desta Primavera nas tuas mãos que ainda me seguram
e comecei a adivinhar Verões e alçapões e pequenos sótãos de tesouros das nossas brincadeiras
mas temi o teu gesto mais sublime, a tua formosura mais explêndida pelas paixões que me traziam
e a tua inépcia para a inépcia de seres um espelho inteiro dos meus segredos

Soçobro embevecido nesta floresta de álamos e carvalhos centenários
onde por meus passos nunca seria herói de batalhas desgovernadas e infindáveis
porque te tenho junto ao meu peito que atingiste nos teus passos mais pequenos
e os meus lábios de arderem queimam-te a pele de um fogo sem nome num êxtase profundo

20060514

Labirinto




Não me roubes as serenidades que cresceram dentro de mim com as tuas conchas, com a tua inocência de pétalas rosa; não descubras o caminho que levei anos a esconder, ou todas as janelas se abrirão para tu entrares, para me reinventares, para me deixares perdido no labirinto que tinha destruído. Apertei-te contra a parede do nosso quarto e segredei-te palavras ao ouvido, as palavras que eu tinha acabado de criar no meu vocabulário. Senti o teu cabelo nos meus dedos e tremi com as tempestades que entraram devagar, num frémito. Fechei os olhos até te conseguir ver e voei pelas noites inteiras. Em cima da mesa, tinhas deixado um mapa por onde eu podia descobrir-te, eu peguei no mapa e na mesa e saltei para uma ponte de fios donde tinha passagem para o teu corpo. Mas não me deixes pensar estas coisas, porque me desequilibro e caio, porque me deixo tentar por mim e pelos meus dedos que não sabem o caminho de volta....

Não me faças rodopiar pela tua pele como um arco-iris de movimentos, em que cada excerto de mim se compõe na tua infinitude de sentidos para criar dentro de nós um quadro pintado de fresco, uma escultura feita de gestos sublimes, de eu te tocar e de tu me tocares em cada nova lágrima, em cada palavra pronunciada pelos nosso lábios sem se abrirem, em cada sonata desenhada numa pauta imaginária pelos nossos corpos. O teu mapa não me mostrava todas as janelas, deves ter um dia apagado as setas que me levavam ao mais fundo de ti, tive que encerrar as minhas vontades férreas e voar por dentro de cada esfera do teu mundo, para descobrir todas essas órbitas que me faltavam.

Mas confundes-me, o teu olhar de menina não me deixa fugir, não sei por onde hei-de conduzir as minhas mãos, por onde hei-de dizer-te discursos, por onde hei-de deixar fluir a minha vontade. Confundes-me, sinto-me atordoado pelo ar com que me rodeias, pelo ar com que me acaricias, pelo sentido e pelo peso que pões em cada palavra. Confundes-me, fazes de mim uma sala enorme sem portas com luzes a piscar como no Natal, como numa espera ansiosa de um presente novo, díficil e delicioso. Confundes-me, fazes-me ter vontade de fazer coisas fora da órbita que me impus, fora do trajecto que decidi fazer ao voltar para casa, fazes-me corar, fazes-me novo, fazes-me inteiro, deixas-me sem este estranho fôlego de não estar calado.

Tiras-me o sono com as tuas mãos sobre o meu corpo, nas magias que florescem de cada gesto teu, na integridade com que me chamas e te deitas ao meu lado para ver as estrelas que plantámos, para ouvir as sonatas que compuseste dentro de mim, que compus dentro de ti, que dedilhámos em violas sem cordas. Tiras-me o sono, de me invadir esta nova vontade que me aprisona neste novo labirinto de te ter, de te sentir, de ouvir os teus novos segredos ao ouvido, de te colares a cada pedacinho de mim para formarmos este chocolate de nuvens ou estas nuvens de chocolate de que não me canso, de que nunca me canso.

É como se os teus gestos fossem feitos de mel, como se a tua voz me respondesse em círculos de luz, não sei se hei-de abraçar-te ou falar-te ao ouvido ou fazer as duas coisas ao mesmo tempo, porque me entorpeces, não tenho vontade de estar em mais lado nenhum e quero pegar em ti e levar-te a carrosséis coloridos e cheios de músicas. Tenho labaredas a queimar-me o peito e só consigo respirar quando me beijas. Deixas-me neste labirinto...

20060506

Bússola



Não sei como te encontrar outra vez, porque a bússola que me entregou aos teus olhos se partiu, continua a marcar a direcção, o passo, o fôlego mas já não tem força. Vilipendia-me saber, sentir, lembrar que te perdi, pela segunda vez. Invadem-me saudades de brincar com os teus dedos, e tu com os meus, de te fazer nós no cabelo, de desfazer os nós na minha garganta em cada ínfima palavra que te ofereci. A paixão mais forte que ouço em todas as tuas músicas tinge-me o corpo, deixa-me a rodopiar na tua sinfonia mais completa, no meu esquecimento descalço de sentidos.

Tenho nas mãos este destino de me lembrar... Lembro-me das nossas despedidas, de Babine o parvo, dos carrosséis e do circo que passava perto de minha casa, lembro-me do que encontrei quando voltei à rua das nossas infâncias que nunca se encontraram ...

20060423

Lovers' Room ...



Lovers Room
(http://www.fine-art-painting-gallery.com)



O canto de uma sereia puxou as minhas amarras para as rochas. Soprou-me segredos inconfessáveis que me arrancaram à luz e me fizeram saber a que sabe a lama de um roseiral bravio que sempre existiu à minha porta, à porta dos meus encantos, à margem de Chopin, de gelados à beira-mar, de cânticos negros em noites iluminadas pelos nossos sorrisos da teoria do esquecimento, do apetrechamento dos dias.

E tu, que nunca soubeste este canto das sereias, que nunca me prendeste as mãos ao cais das tuas madrugadas, que sempre fizeste das tuas esperas um elefante azul, raro e estranho nas quimeras em que sempre quiseste acreditar, tu que saíste da única barca dos amantes para definires os meus dias, que sorriste quando eu tive pena das tempestades e das trovoadas, tu que estás nas veias das minhas mãos quando toco ao piano dos meus jardins dos meus tempos livres, tu que és tua, que não te entregas a nnguém, que te refugias de mim dentro das minhas falhas, tu fizeste estes desenhos todos nos meus céus...

20060315

Pensamento sem nome

Deixa-me ser este sonho nos teus braços. Ia pedir-te para me trazeres essa música que me cantavas enquanto eu dormia, longe destas nossas tempestades todas, ía pedir-to com a minha voz mais alta, mas na realidade que posso pedir-te, se eu próprio embarquei neste barco de estranhos desaparecimentos? Ia pedir-te para não me condenares ao esquecimento dos mares por que nunca navegámos, para não tropeçares na minha sombra como se não te apercebesses da minha presença, mas como posso dizer tamanhas verdades ou mentiras quando me despenhei irreversivelmente dos teus carinhos?

20060114

Razão

Tu és a minha melhor razão. Não segui os teus passos porque os meus passos não eram suficientemente grandes, nem suficientemente claros, nem deixavam pegadas que se demorassem pelas noites do tempo, que se deixassem ficar no espelho das horas. Fechei os olhos ao passar pelas tuas mãos, pelo teu sorriso, porque o portão das minhas esperanças não tinha sido pintado, e voltei para a minha casa de memórias e de sonhos, que nunca soube tecer senão no mais fundo dos meus pensamentos, na mais inócua das minhas palavras. Espero que haja luzes e girassóis inteiros a apontar para mim, a apontar para nós quando eu chegar, porque a sua luz inundará as raízes das minhas árvores seculares com a força que nunca consegui ir buscar, depois de me ter afundado num dos barcos do meu conhecimento.

Deixarei que o tempo me abrace e que haja mais flores, que o hino mais bonito de todos seja cantado em cada pequeno instante, que as imagens se plantem no meu coração, e que do meu coração se soltem todas as mágoas, e deixarei, e deixarei tantas coisas ...

E gostava que soubesses que sempre foste a minha melhor razão...