A minha pereira
A minha pereira nunca deixou de responder às minhas perguntas, e era para todos, para mim, para os gatinhos, para os passarinhos, para as borboletas, para os raios de sol, para as gotas de chuva e para todas os tons do céu uma presença constante. Era como se todos os invernos se encolhessem em vénias quando passavam por ela, porque mesmo nesse descanso, quando as folhas se recolhem para passar o testemunho de tão grandes segredos a outras, parar ao seu lado, encostar-me a ela, ouvir o sussurrar do vento nas suas folhas tão cheias de vida e de encanto, olhar para os seus ramos longos e mágicos, trazia-me essa sensação de paz que eu não conseguia encontrar noutro lugar.
Às vezes procurava-a num jardim antigo, mas nunca demorava o tempo suficiente. Faltava-me a paciência que ela me transmitia e que o meu avô me tentara ensinar, ou a disciplina que a minha mãe me dissera que era tão importante, ou a confiança por teimar em olhar para o chão.
Por vezes penso como devia ter estado mais tempo nesse recanto mágico, que era uma espécie de meu castelo, guardiã da beleza e da bondade, anfitriã das festas de alma mais bonitas. E sempre senti que ela era como da família, como se entre nós todos houvesse (havia) essa ligação umbilical à terra, como se ela nos fosse destinada e nós fossemos destinados a ela.
Como noutras coisas, senti uma estranha invasão quando algumas pessoas se aproximavam dela, como se ela me avisasse dos mares e dos rios e me tentasse escrever na alma as pistas certas para os meus caminhos. Nem sempre os percebi. Algumas vezes também quis levantar a voz, com a sabedoria e tranquilidade que ela me ensinava, mas nem sempre o consegui.
Às vezes imagino que podíamos estar ali, encantados com a sua presença, e fazer um piquenique onde só entrassem fadas e duendes ou pessoas que fossem como fadas e duendes, e ela e as suas irmãs, e os pássaros e as plantas, e cantássemos todos com ou sem palavras, mas com a música mais bonita, aquela que vem de dentro de nós. Às vezes fecho os olhos e imagino-a a sorrir para nós e lembro-me das vezes em que senti esse vazio por ela não estar lá e eu não ter com quem falar.
Recordo a minha infância de coisas bonitas e ela está lá sempre, e vejo a minha avó a tratar dela quando eu era pequenino e eu a sentir que queria descobrir tantas coisas e que a vida era tão bonita, e vejo o sorriso do meu avô e vejo-me a trepar os seus ramos, sem medo das alturas (acho que foi a altura em que tive menos medo das alturas) e a encantar-me com o que via à minha volta. E lembro-me de coisas tão simples e que nunca me abandonaram, nem que fosse por vezes num cantinho muito pequenino. Queria voltar a abraçar os meus avós e brincar com os meus primos e por vezes paro e penso numa fotografia de conjunto que nunca tirámos.
Uma vez disse a uma prima minha (tenho tantas saudades vossas) que um dia ainda havia de plantar uma nova pereira no sítio onde a minha pereira tinha crescido. Nunca o fiz. Como se calhar outras coisas nunca as fiz por estar à espera do tempo certo, do tempo em que eu voltasse a sorrir duma forma que achava que já não conhecia. Mas sempre senti que ela iria renascer um dia, num outro ou no mesmo lugar, para me mostrar todos os arco-iris de que a minha vida se foi esquecendo. Sei agora que renasceu, que já tinha renascido, porque vejo todas as flores com as cores que elas verdadeiramente têm.
Muitas vezes senti que havia coisas muito cinzentas à minha volta e nunca as consegui compreender. Quis fugir para um sítio no meio dum monte muito distante ou afogar-me por instantes no meio do mar (ou ficar dentro de mim - mas dentro de mim nem sempre conseguia manter-me afastado dos ruídos dessas coisas cinzentas), quando me bastaria tê-la abraçado com muita força, ou abraçar as pessoas que sempre estiveram no meu coração, e mostrar-lhes como gostava deles e ouvir os seus conselhos mas sobretudo, sobretudo, o meu coração.
Sempre senti que a falta dela me deixava um vazio, mesmo quando regressava devagar a casa. Quando olho para a minha casa grande e pequenina, penso em tudo que é mais importante para mim, em todas as coisas que sinto, em todos os sonhos que tenho. E é uma das alturas do dia em que sorrio mais, como se dois universos se cruzassem naquele exacto ponto e todas as coisas cinzentas não conseguissem passar. Mas é também umas das alturas em que penso mais, não sei porquê. Talvez por nunca ter tido tantos sonhos como hoje.
Talvez porque o meu coração tem agora mais cor e está tão apaixonado e quer bater com tanta força.
Um dia, há muitos anos, nevou no nosso jardim. Eu fui à janela e tirei uma fotografia. Na fotografia vê-se um pássaro muito pequenino, a neve, e a pereira, a minha pereira :)










